Diante desta pergunta o leitor se espanta. Como assim? Todo dia tem uma notícia de um remédio novo que matou o vírus. Não é possível que ainda não exista tratamento para a covid-19!

Mas, infelizmente, esta é a mais pura verdade! Ainda não temos um medicamento para tratar a covid-19. Neste exato momento, laboratórios e centros de pesquisa de vários países, inclusive do Brasil, estão trabalhando intensamente para descobrir medicamentos que possam ser usados no tratamento da doença causada pelo novo coronavírus. Então, por que não temos uma resposta ainda?

O processo de descoberta e desenvolvimento de um medicamento custa tempo e dinheiro. Antes de ser testada em seres humanos, uma substância deve mostrar efeito em estudos de laboratório, chamados de testes pré-clínicos. Estes estudos envolvem experimentos in vitro (utilizando, por exemplo, células cultivadas em laboratório) e testes utilizando animais, que vão determinar se um composto é razoavelmente seguro para ser testado em seres humanos. Além disso, os testes pré-clínicos permitem avaliar se a substância é capaz de provocar efeitos nocivos em organismos vivos (toxicidade). Estima-se que apenas uma substância em cada 1.000 testadas são aprovadas nesta fase inicial.

Os testes em humanos (testes clínicos) são feitos inicialmente em pessoas saudáveis para avaliar como o medicamento afeta o funcionamento do corpo e qual a dosagem que deverá ser utilizada (estudos de fase I). Esta primeira etapa envolve aproximadamente 100 pessoas. A participação de pessoas com a doença começa apenas na chamada fase II, na qual 100 a 300 pacientes serão avaliados para ver se o medicamento realmente funciona e se é seguro. Finalizada esta etapa, o medicamento vai ser testado com um grupo maior de pessoas doentes e comparado com outro tratamento ou placebo (medicamento sem substância ativa), envolvendo de 1000 a 3000 pessoas, a chamada fase III. Aí sim que o medicamento pode ser comercializado. Esta comparação entre o medicamento novo e um grupo controle é crucial para avaliar os benefícios e riscos em relação ao tratamento que já é feito.

Com esta descrição, fica claro que o processo é longo e custoso. Um medicamento pode levar até 10 (dez) anos para ser comercializado e estar disponível para os pacientes. Entretanto, é preciso ressaltar que cada uma destas etapas é de grande importância para comprovar que uma substância é eficaz e segura, ou seja, se de fato ela produz o efeito esperado e se os danos compensam os benefícios do seu uso.

Como o cenário atual da pandemia exige respostas rápidas, estão testando medicamentos que já são utilizados para o tratamento de outras doenças, na tentativa de acelerar a descoberta de substâncias que tenham atividade contra o vírus. Temos certeza que vamos descobrir um tratamento eficaz desta forma? Não podemos garantir isso. Hoje, há muitas promessas e poucas certezas no que refere ao tratamento medicamentoso da covid-19. É importante que estas pesquisas sejam feitas de forma adequada para que a gente confie nos resultados e assim consiga definir o melhor tratamento, quem deve receber, qual a dosagem e por quanto tempo. Fazer e divulgar resultados de estudos de qualidade ruim não contribuem para tomar decisões adequadas.

Durante a epidemia da gripe espanhola em 1918, o ácido acetilsalicílico foi amplamente utilizado em altas doses, afinal era um dos poucos medicamentos disponíveis e acredita-se que muitas pessoas faleceram por conta da hemorragia causada pelo tratamento.

Por enquanto, desconfie de qualquer notícia que fale que descobriram a cura, que o tratamento A ou B funcionam e principalmente, não corra para farmácia para estocar remédios. Esta é uma atitude egoísta e perigosa. O medicamento fica indisponível para outra pessoa que precisa usar, pode te colocar em risco de ter uma reação e pior, sem ter garantia nenhuma que isso vai te proteger ou te curar.

No momento, a melhor forma de controlar a covid-19 é evitar sua disseminação. Portanto, siga as recomendações de prevenção do Ministério da Saúde: mantenha as orientações de distanciamento social, lave as mãos com frequência, siga as regras de higiene respiratória e evite tocar boca, olhos e nariz com as mãos sujas.

Autoras:

Profª Drª Samantha Monteiro Martins e Profª Dra. Fernanda Lacerda

Centro Regional de Informações sobre Medicamentos UFRJ Macaé (CRIM UFRJ- Macaé)/ PIPS UFRJ-Macaé/GT Enfrentamento COVID-19 UFRJ-Macaé.

Foto: Artur Moês

Fontes consultadas:

INTERNATIONAL SOCIETY OF DRUG BULLETINS. COVID-19 and the quest for drugs and vaccines: Statement from the International Society of Drug Bulletins. Disponível em: https://www.isdbweb.org/publication/press-release/statement-covid-19. Acesso 20 de abril de 2020.

LÜLLMANN, H. et al. Farmacologia texto e atlas. Porto Alegre: Artmed, 2008.

VAN NORMAN, G. A. Drugs, Devices, and the FDA: Part 1. JACC: Basic to Translational Science, v. 1, n. 3, p. 170–179, 2016.

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