Diretor do NUPEM/UFRJ afirma: “Só o conhecimento científico poderá nos salvar do COVID-19”

Passamos por tempos muito difíceis. Acordamos pela manhã e nos jornais não se fala de outro assunto. Todos ficamos desesperados com a possibilidade de perder um ente querido, um amigo, um vizinho. Olhamos para um lado para o outro e no menor sinal de um indivíduo com tosse, nos esquivamos. Fica então a pergunta: como sair deste caos social que começa a se instalar não somente em nosso município de Macaé, mas em todo mundo? 

 

Confira a matéria publicada na íntegra no jornal O Debate.

 

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Discuto e argumento aqui que, somente o investimento continuado em ciência e tecnologia pode nos ajudar a detectar, prever e curar nossa população desta e de outras pandemias que vieram e que virão. Primeiramente, vale contextualizar que esta pandemia que assola nosso país e todo o mundo só ocorre na velocidade observada por causa das grandes possibilidades de migração a partir dos voos internacionais diários.

A partir de uma região da China teve início uma das propagações mais catastróficas de um agente biológico no último século, cujas consequências ainda serão sentidas por muitos meses em nossa sociedade com mortes de milhares e talvez de centenas de milhares de pessoas.

Neste mundo globalizado, as epidemias e eventos de catástrofe climática de grande proporção cada vez mais são e serão responsáveis por mudar as rotinas de bilhões de pessoas. A pergunta óbvia de um cidadão comum seria: Como é possível prever e evitar essas catástrofes mundiais, uma vez que estas situações parecem, à primeira vista, imprevisíveis? Como não ser pessimista num momento desses?

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A resposta para estas perguntas vem da própria origem dos problemas das epidemias e dos eventos de catástrofe climática. Num momento globalizado e conectado é cada vez mais possível fazer com que métodos utilizando grandes dados (“big data”) sejam empregados para realizar previsões acertadas sobre um determinado fenômeno. No caso do vírus COVID-19, o tão falado coronavirus, a Start-Up canadense Blue-Dot foi capaz de prever a pandemia utilizando métodos de inteligência artificial1.

Drones podem ser guiados para destinarem medicamentos para áreas remotas, robôs podem ser utilizados para esterilizar ambientes evitando humanos de se contaminarem, o genoma (DNA completo) do vírus pode ser obtido em algumas horas e centenas de grupos de pesquisa mundiais estão depositando online e em tempo real suas descobertas sobre o coronavirus no website https://www.biorxiv.org/. Assim informações importantes são disponibilizadas rápida e gratuitamente para toda população.

Por outro lado, a velocidade da disseminação das informações falsas, as chamadas “Fake News” nunca foram tão avassaladoras e nunca o conhecimento científico foi tão questionado. Várias pessoas sem formação nas respectivas áreas têm canais no Youtube e se consideram especialistas nos mais variados temas, não procurando fontes científicas confiáveis. Muitos desses canais contam com muitos seguidores, nossos familiares muitas vezes idosos e que são levados de um canal a outro do YouTube automaticamente e acabam acreditando em tudo que é falado, mesmo aqueles canais constituídos de “fake news”.

Como fugir dessa guerra de informações entre o conhecimento científico e o achismo especializado generalizado”? A partir de investimento pesado em ciência, tecnologia, inovação e divulgação científica, em todos os níveis de escolaridade. O conhecimento a partir do método científico deve ser ensinado em todos os níveis de escolaridade para toda população e os investimentos governamentais em todos os níveis federal, estadual e municipal devem ser maciços, e não muito aquém do esperado como em nosso país.

Atualmente o Brasil investe cerca de 1% do seu PIB em ciência e tecnologia, enquanto Alemanha, China e Estados Unidos investem cerca de 3% , em valores absolutos é possível dizer que enquanto a China investe mais de 300 bilhões em Ciência e Tecnologia2, o orçamento para investimentos do ministério de Ciência e Tecnologia é de cerca de 1 bilhão de dólares (4,7 bilhões de reais em valores atualizados).

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No Estado do Rio de Janeiro a Constituição Estadual determina que 2% (dois por cento) da receita tributária do exercício deveriam ser destinados ao fomento da ciência via Fundação de Amparo à Pesquisa Carlos Chagas Filho (FAPERJ) 3. Todavia nos últimos anos este percentual não tem sido repassado à FAPERJ e tem prejudicado as atividades em todo o Estado do Rio de Janeiro, em particular Macaé, que possui hoje diversas instituições públicas de ensino superior (UFRJ, UERJ, UENF, UFF) cujas atividades de pesquisa tem sido paralisadas por falta de recursos.

Dentro deste contexto poucos macaenses sabem, mas existem nestas instituições de pesquisa, em particular no NUPEM-UFRJ, dezenas de doutores altamente qualificados a partir de anos de estudo no exterior e equipamentos de última geração que se encontram parados por falta de insumos e de local apropriado para instalação destes. A junção do conhecimento acadêmico com os recursos necessários seriam fundamentais para ajudar cientificamente a comunidade de saúde de Macaé e toda região do Norte Fluminense.

Conhecimento científico não falta em Macaé, a questão é a destinação e planejamento apropriado de recursos para enfrentar os problemas complexos e multidisciplinares do século XX. A superação desta pandemia, a partir da união da abordagem científica com o esforço da sociedade, nos permitirá alcançar a sustentabilidade em todos os seus níveis, valorizando a preservação ambiental e promovendo saúde de qualidade para todos.

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Rodrigo Nunes da Fonseca é Diretor do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade – NUPEM, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Cientista do Nosso Estado – FAPERJ e Membro Afiliado da Academia Brasileira de Ciências.

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