Aluno do PPG-CiAC/NUPEM Relata suas Experiências Acadêmicas durante Intercâmbio na República Tcheca

Luís Eduardo Nogueira concluiu o estágio de doutorado na Universidade do Sul da Bohemia. Confira como foi a sua vivência no exterior!

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            No mês de maio de 2017 iniciei meu estágio de doutorado no exterior pelo Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (CAPES)[1]  junto ao Dr. Francesco de Bello (http://www.butbn.cas.cz/francesco/Webpage/Home_-.html) – docente e pesquisador da Universidade do Sul da Bohemia (University of South Bohemia, České Budějovice, Czech Republic). A oportunidade que tive de trabalhar e aprender com o Dr. Francesco é a prova de que não se faz ciência sem integração acadêmica. Nosso primeiro contato se deu por meio dos pesquisadores Dr. Eduardo Arcoverde (Departamento de Ecologia/UFRJ) e Dr. André Dias (UERJ), que, por meio de financiamento da CAPES, trouxeram-no para uma visita ao Brasil no início do ano de 2015. Contudo, o maior estímulo para minha viagem para a República Tcheca veio de meu orientador, Prof. Dr. Rodrigo Lemes (NUPEM/UFRJ), grande incentivador que sempre se esforçou para viabilizar nosso projeto e concretizar as ideias que juntos tivemos ao longo do caminho. O Professor Rodrigo sempre esteve disponível para discutir e orientar minhas inquietações teóricas, fator decisivo para tornar possível esta integração nacional e internacional.

            Meu vínculo junto ao Dr. Francesco se deu através do Departamento de Botânica da Universidade do Sul da Bohemia. O objetivo do meu trabalho foi compreender, sob a perspectiva funcional, a organização das espécies lenhosas da Formação Arbustiva Aberta de Clusia. Durante o tempo que lá estive, trabalhamos nos dados que coletei ao longo de três anos de trabalho na Restinga de Jurubatiba (Macaé, Carapebus e Quissamã). Eu deixei o Brasil com uma tese, mas regressei com outra. Esta não é diferente daquela, mas muito mais completa. O Francesco, seja por suas sugestões ou questionamentos, fez com que questões e teorias passíveis de discussão emergissem a partir da minha proposta inicial.

            Por que isso é importante? Porque devemos saber quando alterar ou abandonar nossas hipóteses. “Um bom biólogo deve ser capaz de dar sentido biológico aos seus resultados, mesmo que estes não corroborem seu pensamento inicial”, disse-me o Francesco certa vez. Ocasionalmente, por mais óbvio que algo possa ser, temos que ir mais longe – geográfica, filosófica e/ou intelectualmente – para, ao menos, propor-nos a enxergar o assunto sob outra perspectiva. “Eu poderia ter lido este artigo ou livro no Brasil...” Sim, poderia. Tê-lo-ia feito ou mesmo saberia de sua existência sem que a discussão com alguém me tivesse estimulado a combinar palavras diferentes no “Google Scholar”, por exemplo? Talvez, por um acaso qualquer. Isso é ainda mais relevante quando penso em algo que já me havia sido dito quando viajei: a ecologia não é um domínio científico construído somente a partir de argumentos e observações. Dependemos bastante de modelos matemáticos e da estatística e, por vezes – digo por experiência própria –, colocamos a biologia em segundo plano, embora não de propósito. O Professor Rodrigo Lemes, meu orientador no Brasil, alertou-me algumas vezes sobre isso.

 

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            Quando lemos os artigos de pesquisadores estrangeiros, é bastante fácil ficar impressionado com seus delineamentos experimentais e técnicas estatísticas desenvolvidas, muito embora, geralmente, não trabalhem com a especificidade da  realidade complexa dos ecossistemas tropicais. Tive a oportunidade de ter contato – presencialmente ou através de apresentações – com vários experimentos, cuja riqueza e nível de complexidade funcional, temporal e espacial variam bastante. Conversando com uma colega brasileira que está desenvolvendo seu pós-doutorado junto ao Francesco, pude perceber que temos a mesma percepção: às vezes, os experimentos davam a sensação de estar “tirando leite de pedra”. É verdade que lá não há ecossistemas tão empolgantes como os que aqui temos, e muitas vezes foi difícil aceitar algumas coisas por não ver semelhança com o que ocorre em sistemas naturais. Todavia, é através desses experimentos que ferramentas e modelos estatísticos são desenvolvidos, permitindo-nos, através de um planejamento amostral adequado, aplicá-los à nossa realidade. Lição apreendida? Por mais que você estude a teoria e conheça seu objeto de estudo, proponha-se realmente a explorar outros limites. Vale muito a pena! Incorporei, sob a supervisão do Francesco, algumas dessas ferramentas na análise dos meus dados.

            Quando eu viajei, acreditava possuir um bom domínio sobre o software R, ferramenta extremamente relevante para os ecólogos. “Pobre de mim”! Junto ao Francesco e aos colegas alemães, brasileiros (sim!), espanhóis, franceses, italianos e tchecos apreendi incontáveis novidades. Nunca pensei em incorporar filogenética à minha tese – devo agradecer especificamente aos dados que o Projeto Flora do Brasil 2020 (Jardim Botânico) disponibiliza –, agora presente em meu trabalho. As tardes de quinta-feira, quando apresentávamos seminários ou discutíamos artigos, mostraram-me novos caminhos. Ideias surgiram e as reuniões com o Francesco transformaram-nas em algo relevante – hoje parte primordial de minha tese.

            Durante o início de outubro, participei de saídas de campo e cursos do ERASMUS. Este programa permite que estudantes (graduação, mestrado e doutorado) de universidades localizadas em países da União Europeia cursem um semestre em outras universidades. Há uma programação de cursos e palestras durante o outono e o inverno para recebê-los. Tive a oportunidade de assistir apresentações e participar de alguns cursos, onde conheci estudantes e pesquisadores de outros países, além dos colegas do departamento de botânica. A saída de campo foi realizada na Reserva Nacional Natural de estepes Mohelenská hadcová (Národní přírodní rezervace Mohelenská hadcová step), localizada em Třebíč, na Moravia. A visita foi guiada pelo Professor Dr. Jan Leps (http://botanika.bf.jcu.cz/suspa/), pesquisador de renome internacional em ecologia funcional e que foi responsável por transformar um instituto de pesquisa no que hoje é a Universidade do Sul da Bohêmia. Aqui vale uma observação interessante sobre a academia Tcheca: coloquei o título de “Professor“ antes do nome do Dr. Leps porque por lá este é um título a ser conferido pelo Presidente da República a um pesquisador. Passar uma semana em campo com o professor Leps foi muito proveitoso. Tive verdadeiras aulas de teoria ecológica em campo.

            Por fim, gostaria de agradecer a CAPES e aos Professores Rodrigo Lemes e Francesco de Bello por ajudarem a transformar em realidade o meu sonho de realizar um intercâmbio acadêmico e cultural, que marcará minha vida e carreira para sempre. Hoje, sem dúvidas, sou um pesquisador mais completo e ainda mais disposto a trilhar o caminho de constante formação que caracteriza a vida acadêmica. Agradeço, também, ao NUPEM/UFRJ e ao Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais e Conservação (PPG-CiAC) por todo o esforço em manter o Núcleo e o Programa crescendo e por estimular a sua internacionalização –  fatores decisivos que proporcionam uma formação ainda mais sólida aos mestrandos e doutorandos.

Na zdraví! (Saúde!)

Luís Eduardo Nogueira

Aluno de doutorado do PPG-CiAC, sob a orientação do Professor Rodrigo Lemes Martins

Defesa: Final do mês de março – ainda sem data definida

 

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[1] Programa instituído em 2011, em substituição ao Doutorado Sanduíche Balcão e ao Programa de Doutorado no País com Estágio no Exterior (PDEE), que tem por  objetivo “apoiar a formação de recursos humanos de alto nível por meio da concessão de cotas de bolsas de doutorado sanduíche no exterior às Instituições de Ensino Superior com cursos de Doutorado reconhecidos pela Capes”.

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